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quinta-feira, 12 de maio de 2016

1966 - Geraldo Vandré - 5 Anos de Canção



01 - Porta Estandarte (Geraldo Vandré e Fernando Lona)
02 - Depois É Só Chorar (Geraldo Vandré)
03 - Tristeza de Amar (Geraldo Vandré e Luis Roberto)
04 - Réquiem Para Matraga (Geraldo Vandré)
05 - Canção do Breve Amor (Geraldo Vandré e Alaíde Costa)
06 - Fica Mal Com Deus (Geraldo Vandré)
07 - Rosa Flor (Baden Powell e Geraldo Vandré)
08 - Pequeno Concerto Que Virou Canção (Geraldo Vandré)
09 - Se a Tristeza Chegar (Baden Powell e Geraldo Vandré)
10 - Canção Nordestina (Geraldo Vandré)
11 - Ninguém Pode Mais Sofrer (Geraldo Vandré e Luis Roberto)
12 - Quem Quiser Encontrar o Amor (Geraldo Vandré e Carlos Lyra)

"A verdade é que, quando Geraldo Vandré apareceu compondo, a música popular brasileira estava ficando cada vez menos brasileira e muito menos popular. O seu primeiro sucesso, como compositor, — um samba bem feito de parceria com Carlos Lyra — dispensava de uma vez a fórmula dos diminutivos frívolos e gratuitos, tão usados pelos bossanovistas de então. Era o ano de 1960 e êste primeiro sucesso foi 'Quem quiser encontrar o amo', feito de parceria com Carlos Lyra e lançado em discos RFE. A música marcava uma primeira procura da nossa realidade cultural. Abria mão daquela chave fácil de jazificada de estruturar composições. Daí Vandré se animou para uma tentativa mais séria e, sobretudo, pioneira: a de apropriar-se de uma temática nordestina, trabalhando-a num tipo de canção de conteúdo bem mais coletivo. O resultado desta pesquisa de dois anos refletiu-se concretamente nas músicas "Canção nordestina" e "Fica mal com Deus" (lançamento da "Audio Fidelity", de 1962). A esta altura do campeonato começou a ficar clara a necessidade de símbolos de comunicação mais coletivos e mais identificados com nossa realidade. E Vandré trabalhava na frente, muitas vêzes (digo: quase sempre) contra a expectativa dos donos do nosso mecanismo de divulgação musical. Mas nem por isso deixou de fazer suas canções.

A marcha de rancho "Porta Estandarte", de parceria com Fernando Lona, deu a Vandré a certeza de estar no caminho mais indicado para fazer música participante e brasileira. E lhe deu também o primeiro lugar no II Festival de Música Popular Brasileira, organizado pela TV Excelsior. Tornava-se portanto vitorioso o esfôrço em busca de uma "canção de rua".

Neste LP, "Vandré - 5 anos de canção" estão 12 das músicas que mais definem seu trabalho (já compôs pouco mais de meia centena). E a fórmula de vesti-las foi a mais simples possível. A importância dêste trabalho é que êle revela uma experiência nova e também pioneira de Geraldo Vandré. Traa-se da utilização - pela primeira vez em têrmos urbanos - de instrumental autêntico da moda de viola do Centro Sul do País. Os temas são desenvolvidos de maneira original, com bastante criatividade. E é na medida dêste desenvolvimento que a moda de viola ganha condições de conquistar o público das cidades. (Nada a ver com as exibições caricatas de Tonicos, Tinocos, etc e tal). O sentido universalista dêste tipo de moda de viola lhe dá condições, inclusive, de abrir uma faixa maior do mercado consumidos, como aconteceu com as tentativas dos autores de Bossa Nova de voltar ao morro (por iniciativa de Lyra) ou ao samba-de-roda baiano (por iniciativa de Baden Powell). O caminho atual de Vandré resulta de um trabalho iniciado quando êle foi chamado a compor as músicas do filme "A Hora e a Vez de Augusto Matraga". No "Réquiem para Matraga", por exemplo, foi mantida a mesma linha de instrumentação usada no filme (viola, violão e triângulo)

Os violões que se ouvem são de Heraldo e Théo, que ao lado de Airton (ritmo) foram um trio — o Trio Nôvo — de rara unidade. O arranjo de "Porta Estandarte" (música já gravada) foi simplificado por sugestão de Vandré: neste disco aparecem apenas dois violões e um côro misto, predominantemente em uníssono. Em "Quem quiser encontrar o amor" encontramos a gravação original feita com arranjo e violão de Badenm utilizando violão e flauta.

Para nós êste élepê confirma o esfôrço de um artista para manter-se sempre responsável e consequente, compondo e cantando, em relação ao objetivo de tôda a sua obra: diminuir o vácuo existente, cada vez maior, entre a realidade musical de nosso povo e o comportamento musical da maioria de nossos compositores de agora."

Franco Paulino

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segunda-feira, 22 de junho de 2015

1967 - Geraldo Vandré - Canto Geral



"Desses tempos em que falar de árvores é quase um crime, pois implica em silenciar sobre tantos erros - aos que virão depois de mim."

BERTOLD BRECHT

A comunicação (não confundir com massificação) é para nós o objetivo fundamental de qualquer trabalho em arte. A invenção e a elaboração somente transcendem seus aspectos puramente formais e passam a ser efetivamente criativas quando servem a uma necessidade real e concreta de repartir. Sem bondades e sem heroísmos.

Por uma decorrência natural de ser e de ter. Porque repartir é, em última análise, um exercício fundamental da existência e a única razão de ser da propriedade.

Construindo casas ou pontes, igrejas ou hospitais, pintando, curando doentes, voando ou varrendo as ruas, fazendo política ou amor, morrendo e, porque não, matando, a vida importa somente pela doação que se faz dela, pelo sentido e pela direção. Às vezes penso que cantando mereço um pouco a vida. Saldo em parte os meus compromissos e tenho então, cada vez mais forte, a impressão da liberdade. Por isso aprendo a cantar e canto.

Neste disco a palavra Geral tem de mim somente uma vontade muito grande de colocar-me sem pudores com o instrumento da comunicação de tudo que aprendi a ver, ouvir, pensar e sentir a respeito do meu tempo, do meu lugar e da gente que vive neles. A palavra Geral tem ainda o sentido de reconhecimento público de devo a algumas pessoas cujo trabalho de dedicação profissional tornaram possível a sua realização. São elas: Osvaldo Gurzoni, Orlando Stephano e Maestro Peruzzi, diretores da ODEON em São Paulo. Moacyr Rocha, diretor de Arte, também da ODEON em São Paulo, que juntamente com George Torok e Fernando Lemos, ambos da Maitiry, nos deram a apresentação gráfica, Nivaldo Duarte pelos cuidados, pelo gosto e os resultados no som das gravações. Edgar e Marconi, responsáveis pelo som fundamental da viola caipira ou brasileira como queiram. Cleon no que há de oboé e corne inglês.

Nosso reconhecimento e gratidão são finalmente para Bering pelo canto, pelo ca-chi-chi, pelo tan-tan, pela queixada de burro, pelo reco-reco e pelo triângulo. Para Marconi pelo canto, pela viola, pelo tan-tan, pelo pau e pela chama e pelos arranjos instrumentais. Para Hilton pelo canto, pelo violão, pelos arranjos vocais, pelas canções que fez comigo e pela lealdade maior do melhor amigo. Para o Trio Marayá, que soma Bering, Marconi e Hilton, pela consciência e entrega sem limites no trabalho. Pelas brigas, pelas discussões, pela compreensão com os meus defeitos maiores e menores, pela teimosia nordestina e pelo amor à terra e a sua gente.

O sentido da palavra Geral depende, afinal, do acerto no trabalho. Das notícias e das emoções que ele pssa trazer a cada um de nóis e principalmente do uso que faremos delas.

É possível que este disco tenha custado a mim mesmo e a outras pessoas mais do que esperávamos, do que gostaríamos ou do que seria justo que custasse. Mas eu tenho uma boa explicação: os critérios de justiça do mundo em que vivemos ainda estão muito longe de poder dar-nos a certeza e uma garantia mínima do que seja verdadeiramente justo ou injusto.

GERALDO VANDRÉ - Março de 1968

PS - "Vós que Vireis na crista da onda em que nos afogamos, quando falardes de nossas fraquezas pensai também no tempo sombro a que haveis escapado"

BERTOLD BRECHT



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