domingo, 8 de novembro de 2015

1970 - Elis Ao Vivo



Caros leitores,

Este blog é como um diário musical, de forma que as coisas que eu posto são basicamente aquelas que estou descobrindo ou revisitando no momento. Inevitavelmente, as postagens refletem certos cuidados e hábitos que tenho enquanto ouvinte, em particular o de não ficar restrito a um estilo musical. Para tanto, costumo fazer um espécie de rodízio consciente entre álbuns de música instrumental e vocal, de música popular e erudita, com uma frequência um pouco menor de óperas já que a audição delas geralmente me toma mais tempo (gosto de ouvir acompanhando o libretto).

Nesta semana estou terminando a maravilhosa biografia da Elis 'Nada será como antes', do Júlio Maria. Cresci num ambiente rodeado de música brasileira, Gal, Chico, Caetano, Belchior, Raul Seixas, Bethânia. De todos esses artistas da minha infância, sempre senti uma afinidade particular com a Elis Regina, que me arrebatava a um estado de graça com suas interpretações de carga dramática incomum. Até para um menino de apenas 8 anos.

Por volta dos meus 10 anos, a música foi perdendo a relevância que tinha no meu cotidiano conforme me dedicava a atividades mais comuns a alguém da minha idade. Pelo convívio social, meu leque musical expandiu daquilo que eu ouvia em casa até o que as crianças do meu convívio ouviam, numa época onde o axé e o pagode imperavam (estamos falando de 95, 96).

Foi um período de limbo musical até um determinado dia, quanto eu tinha 14 anos e R$6,00 no bolso. Passando por uma loja de CDs, naqueles balaios onde vendem os mais baratos, dei de cara com um álbum da Elis Regina. Olhando a relação de músicas, era a mesma de um álbum ao vivo que fazia parte da coleção de casa e havia se extraviado numa das muitas mudanças. Pelo apelo irresistível de encontrar uma memória afetiva a um preço tão módico, levei o tal CD pra casa.

Tão deslumbrado quanto na infância, ouvia aquele turbilhão de emoções evocadas por músicas que iam das profundezas existenciais de "Transversal do Tempo" a efusividade brejeira de "Madalena". Viciei. Ouvia incessantemente o álbum, mastigava cada canção, extraindo delas um deleite que eu havia esquecido. Não demorou muito até aquele álbum se tornar insuficiente.

Pelos mais variados meios, conforme a oportunidade aparecia, fui aumentando meu acervo da Elis e registrando em fitas k7. O próximo álbum que encontrei, uma coletânea, tinha no repertório aquele pout-porri de sambas do Dois na Bossa com o Jair Rodrigues. Cai pra trás. Tão mais insaciável e curioso me tornava a cada coisa inusitada que eu conhecia dela.

Naquela mesma época, por acaso do destino, a Phillips tinha lançado uma caixa com os álbums que ela havia lançado pela gravadora (quase toda a discografia dela), e a maioria das lojas apostava na venda individual. Álbuns menos conhecidos geralmente eram encontrados nos mesmos balaios que encontrei o primeiro álbum que comprei, com preços que iam, quando muito, a R$10,00.

Não demorou muito até a própria Elis se tornar insuficiente, e meus ouvidos ficarem alerta a qualquer sonoridade distinta ou nome desconhecido. "Que música é essa na abertura da 'Presença de Anita'?", "Quem é essa tal 'Billie Holiday?'". Minha bagagem musical ia aumentando.

Na minha peregrinação por encontrar mais álbuns da Elis, tarefa a qual me dediquei com afinco de colecionador por alguns anos, topava com outros álbum que me atiçavam a curiosidade, lembrando que naquela época eu ainda não usufruia das maravilhas da internet. Às vezes somente um nome curioso ou uma música no repertório que eu já conhecia bastava pra eu não sair da loja de mãos abanando: Nina Simone, Sarah Vaughan, Clara Nunes, Baden Powell, Carlos Gardel.

A coisa foi ficando cada vez mais séria quando comecei a reparar no timbre dos instrumentos, e desenvolver um gosto particular pelo violoncelo. Achei um álbum de 'um tal de Pablo Casals', tocando Bach.

No dia que essa incessante jornada musical se encontrou com a internet, a sede por novas sonoridades e pelas emoções que elas suscitavam foi catalizada a níveis estratosféricos, de forma que me sentia injusto guardando tudo isso somente pra mim. Por essas e outras, mantenho esse espaço.

O longo texto que trago pra vocês, é para explicar o que vou fazer nos dias que seguem: vou dedicar as próximas postagens a discografia da Elis Regina, irei alternando alguma coisa que outra de outros artistas, mas de resto virão muitas postagens dela. Ela foi a responsável por me devolver todo um universo musical do qual fui alheio por um tempo, e que hoje compartilho com vocês. A biografia que estou lendo passa por nomes de músicos, compositores, canções e álbuns que são partes indissociáveis da minha vida. Conforme leio sobre a vida da Elis, reconstituo a minha de alguma forma. E isso inclui, evidentemente, um retorno a discografia dela, que estou revisitando álbum por álbum.

Como primeira postagem, além dos álbuns dela que já existem no blog, nada mais justo que começar com aquele que encontrei certo dia a R$6,00 num balaio de CDs do centro da cidade. Não se trata do melhor álbum dela, e vocalmente ela não estava nos seus melhores dias, mas mudou minha vida pra sempre.

01. Como Nossos Pais (Belchior)
02. Travessia (Milton Nascimento / Fernando Brant)
03. Morro Velho (Milton Nascimento)
04. Romaria (Renato Teixeira)
05. A Dama Do Apocalipse (Natan Marques / Crispim)
06. Colagem (Cláudio Lucci)
07. Madalena (Ivan Lins / Ronaldo Monteiro de Souza)
08. Qualquer Dia (Ivan Lins / Vitor Martins)
09. Cadeira Vazia (Lupicínio Rodrigues / Alcides Gonçalves)
10. Vida De Bailarina (Américo Seixas / Chocolate)
11. Triste (Tom Jobim)
12. Dois Pra Lá, Dois Pra Cá (João Bosco / Aldir Blanc)
13. Mestre-sala dos Mares (João Bosco / Aldir Blanc)
14. Transversal Do Tempo (João Bosco / Aldir Blanc)
15. Cartomante (Ivan Lins / Vitor Martins)

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