quinta-feira, 12 de novembro de 2015

1975 - Elis Regina - Falso Brilhante Ao vivo




Folha de São Paulo, 19/12/1975 O SHOW COLORIDO

"O que se dizer de um espetáculo que logo no primeiro número põe as pessoas da platéia em pé e em estado de semi-delírio? Um espetáculo que ao final do primeiro ato faz com que os espectadores se abracem e chorem juntos? É realmente muito difícil para o jornalista escrever sobre tudo o que foi mostrado no show de estréia de Elis Regina no Teatro Bandeirantes, na noite de anteontem. Muito mais do que um momento de entretenimento, aqueles momentos de imensa verdade puseram as pessoas a pensar. E isto é bom. Elis desnuda toda sua vida de artista e a assume com dignidade. Seus tímidos passos iniciais no "Clube do Guri" de uma emissora de Porto Alegre, ao final, estão presentes nos passos seguros de uma mulher que canta e por isso não precisa pedir desculpas. Ela se joga inteira e todos o sentem; e sentindo, aplaudem com todas as forças. Começou algo de muito sério, novo e importante nesse show. Elis canta sua infância repleta de cantigas de roda e juntamente com os músicos mostra uma alegria que desde a infância não sentíamos. Sua aparição no "Clube do Guri", usando um vestido cor-de-rosa cheio de babados e uma peruca loira, já situa bem o espectador dentro do espetáculo. Quando ela canta "Mamãe", que foi lançada por Ângela Maria, seu sotaque, seu jeito, toda a sua formação musical vêm à tona e recebem de volta aplausos que valem por uma consagração.
Um aval público que, já de início, a autoriza a mostrar-se por inteiro. E ela o faz. Entrega-se por completo. Assume a nossa (in)cultura e é imediatamente compreendida, aplaudida e amada. Aliás, a vedete de todo o espetáculo é o amor. Um amor que uniu toda aquela equipe linda e capaz. E isso passa à platéia a cada instante do show. A vida do artista que sai em capas de revista, de jornais e que nunca se sabe se tem ou não contas de luz, colégio das crianças, ou outras coisas para pagar, está ali mostrada por inteiro. O artista que é mesmo um falso brilhante e que canta, toca, sofre e varre o palco. O artista que, como os músicos, sabe-se feliz por estar trabalhando, embora ganhando muito pouco, e que não é um daqueles 80 mil sem emprego, numa classe que congrega mais de 140 mil profissionais. Ela está ali, representada na valsa de Strauss "Vida de Artista" e mostra todos eles varrendo a palco com vassouras prateadas. Até a vassoura do artista precisa ser diferente, não é? Elis sublima essa sempre pouco reconhecida classe. Ela mostra que ser artista é saber ser o repórter plástico e/ou musical de seu povo. E isso ela sempre frisa a cada interpretação. E o seu povo entende que em boa hora lhe delegou o poder de falar com música os seus problemas, suas alegrias, sua vida.

A riqueza do espetáculo não é só plástica, visual ou sonora. Ela é, principalmente, de propósitos; de fé e de amor. Sente-se isso. Desde "Fascinação" (Armando Louzada), "Hymne a ramour" (Edith Piaf), "Gracias ala vida" (Violeta Parra) ou "Los Hermanos" (Atahualpa Yupanqui), o que se percebe e se sente é que tudo o que está sendo mostrado, sentindo, ou cantando, é feito com muito amor, muita verdade e sinceridade. E isso só bastaria para definir-se esse espetáculo. Mas, há outros pontos ainda a serem ressaltados. Só mesmo Elis Regina para cantar e emocionar as pessoas cantando "A Protofonia do Guarany", de Carlos Gomes, "La Puerta", "Volare", "Diz Que Tem" e todas as músicas de todos os gêneros que são 46, ao todo, sem cansar em nenhum instante a platéia que a aplaudia a mil por hora. O final da primeira parte, onde numa sincronização perfeita de cenários, filmes, música e a voz de Elis cantando "Glória, Glória, Aleluia", talvez, seja o responsável pela parte dessa mudança que se opera nas pessoas que assistiram ao show. Como que hipnotizados, todos de pé, aplaudiam com as mãos e com as lágrimas esse que foi um dos mais importantes momentos de nossa dramaturgia. Logo em seguida, já no camarim, fomos testemunhas de uma das mais tocantes cenas: abraçada à sua mãe, Elis chorava e agradecia a ela, que apenas disse: "Bendita a hora em que deixei você cantar no Clube do Guri". Lá na platéia, as pessoas estáticas como se fossem de mármore, não sabiam bem o que dizer sobre o que acabavam de assistir. Nem nós, mesmo agora passadas mais de 24 horas. Só vendo. Só vendo. A direção dada por Miriam Muniz ao espetáculo nos coloca diante de uma das maiores diretoras que nosso teatro já teve, segundo declarações de artistas consagrados que assistiram ao show de Elis, como Paulo Autran, Juca de Oliveira e outros. Direção adulta, profissional, perfeita e de um conteúdo humano fora do comum. O som que Rogério Costa preparou a custa de muito sacrifício, foi o melhor que aquele teatro já ouviu. Tudo perfeito. Os bonecos de Naum Alves de Souza, suas cores e seu bom gosto, foram poderoso veículo de caracterização de tudo o que o show quis dizer e disse. Que se preparem os prêmios, porque o espetáculo para ganhá-los já existe. "Falso Brilhante", com Elis Regina, no Teatro Bandeirantes. Só vendo. Só vendo."

WALTER SILVA

01. Fascinação (Fascination) (F.D. Marchetti - M. de Feraudy - versão: Armando Louzada) - voz: Carlos Galhardo
02. Cantigas de roda:
    Se essa rua fosse minha
    Atirei o pau no gato
    Sambalelê
    O cravo brigou com a rosa
    Ciranda, cirandinha
    Ai bota aqui o seu pezinho
    Escravos de jô
    Uni duni tê
    A galinha do vizinho (Domínio público)
03. Clube do Guri:
    Tema do Clube do Guri
    Vei luz
    Olha a noite
    Mensagem aos pais
04. Mamãe (David Nas ser - Herivelto Martins)
Tema do Clube do Guri
05. No dia em que eu vim-me embora (Caetano Veloso)
    Cidade maravilhosa (André Filho)
06. Comercial: "Flores brancas"
07. A protofonia do Guarany (Carlos Gomes)
08. Uno (Enrique Santos Discépolo - Martiano Moraes)
    Olhos Verdes (Vicente Paiva)
    Singing in the rain (Arthur Freed - Nacio Herb)
    Volare
    L'hymne a l'amour (Marguerite Monnot)
    La puerta (Luiz Demetrio)
    Gira, (E. S. Discepolo - Versão Giuseppe Guiaronni)
    Diz que tem (Vicente Paiva - Aníbal Cruz)
    Canta Brasil (Alcyr Pires Vermelho - David Nasser)
    AQuarela do Brasil (Ary Barroso)
09. Encenação
10. Berimbau (Baden Powell/ Vinícius de Moraes)
11. Arrastão (Vinicius de Moraes - Edu Lobo)
    O morro não tem vez (Tom Jobim - Vinicius de Moraes)
    Reza (Edu Lobo - Ruy Guerra)
    O canto de ossanha (Baden Powell - Vinicius de Moraes)
    Deixa (Baden Powell - Vinicius de Moraes)
    Lapinha (Baden Powell - Paulo César Pinheiro)
    Upa, neguinho (Edu Lobo - Guarnieri)
12. Vencendo vem Jesus (Glória, glória, aleluia) (Julia Ward Howe - John William Steffe)
13. Hino da batalha da República (Júlia Ward Howe)
14. Gracias a la vida (Violeta Parra)
    Vida de Artista (Strauss)
15. Los hermanos (Atahualpa Yupanqui)
16. Quero (Thomas Roth)
17. O que tinha de ser (Tom Jobim - Vinicius de Moraes)
18. Tatuagem (Chico Buarque - Ruy Guerra)
19. Agnus Sei (João Bosco - Aldir Blanc)
20. Jardins de infância (João Bosco - Aldir Blanc)
21. Como nossos pais (Belchior)
22. Velha roupa colorida (Belchior)
23. Homem de la mancha (Chico Buarque - Ruy Guerra)
24. O cavaleiro e os moinhos (João Bosco - Aldir Blanc)
25. Um por todos (João Bosco -Aldir Blanc)
26. O mestre-sala dos mares (João Bosco - Aldir Blanc)
27. Marcha da quarta-feira de cinzas (Carlos Lyra -Vinicius de Moares)
28. Fascinação (Fascination) (ED. Marchetti - M. de Feraudy - versão: Armando Louzada)

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Um comentário:

Erick Gonzales disse...

E.S.C.A.N.D.A.L.O
Nunca antes habia escuchado este Disco....Elis en sus mejores cualidades vocales, desde lo Clasico hasta lo Moderno.
Toda una Belleza, Elis fue, es y sera "EL Diamante mas caro de Brasil"

GRACIAS!!!